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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

VIII

Assumiu a sua loucura e privava com loucos como ele. Foi apresentado a uma vida de vícios que lhe preencheram o fosso existencial e lhe acalmaram momentaneamente um certo ódio que sentia a si mesmo. Afinal a sua vida era tão oca como a da maioria. As pessoas cuja inteligência ambicionava compreender eram tão vazias como todas as que já tinha conhecido.

Entregou-se ao esquecimento, abandonou-se a amar meretrizes de sensações. Pouco fazia para justificar a sua existência. Passava a vida a olhar para o vazio na tentativa de compreender como tinha chegado ali. A sua imaginação, agora totalmente infetada, pintava-lhe caminhos sem saída. Criava mentiras e ilusões para escapar, agonizava quando se sentia existencialmente determinado. Era agora prisioneiro de tudo aquilo que contrariava as suas crenças e sua lógica. O livre arbítrio, afinal, podia ser revogado por coisas tão materiais. A dor para voltar a ser livre era demasiado grande para abraçar. Era tão mais simples viver numa prisão com grades de açúcar, ignorando tudo em que acreditamos.

Visitava à noite a sua consciência numa tentativa de reconciliação. Estava mais vulnerável à noite. Sentia os olhos gotejarem ódio, culpa e dor. Sentia-se enlouquecer. Por vezes ouvia-se falar consigo mesmo…

 - Olha para ti… procuras respostas nos que desistiram. Tens que deixar a máscara cair do rosto. Vejo que não conheces o futuro e sabes que os sonhos são feitos de terror. Encontra algo que te mantenha agarrado à vida! Mas isso só não chega. Não precisas de roubar vidas e torná-las tuas para esqueceres que não tens vida. Une-te a mim e aprende a deixar tudo para trás. Crescerás finalmente. Farei com que a inteligência infernalmente criada, finalmente, rume à luz. Já te disse quem és? Tu és eu mas eu não sou tu. Agora és uma pálida desculpa de ser humano, cheio de dúvidas, vícios e angústias. Sou o personagem que criaste para nunca te deixar esquecer quem és realmente. O que jaz para trás e o que se levanta no futuro pouca importância tem comparado com aquilo que cresce dentro de ti. Neste labirinto de escolhas saberás na hora certa, não anseies, não receies.



Eduardo de Montaigne part. I, part. II, part. III, part. IV, part. V, part. VI, part. VII


(Ahn Sun Mi)

domingo, 26 de julho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

VII

Sentia que todas as pessoas eram visceralmente iguais. Uma desilusão.
Só tinha uma questão em mente e só essa teria que ser respondida. Todas as outras lhe pareciam inúteis. Talvez obter conhecimento o ajudasse a compreender o que teimava em escapar-lhe. Parecia-lhe tudo extremamente complexo e todos os outros aparentavam ser mais apaixonados pelo que faziam. Todavia talvez se sentissem apenas vazios e aquilo que faziam preenchia-lhes o tempo que eram obrigados a viver.

O desprezo pela arrogância alheia fazia com que fugisse do estigma que neles reconhecia e abominava. Escolheu a companhia dos que considerava criativos e simples e afastou-se dos obcecados intelectuais. Achava os primeiros genuínos e despretensiosos. Antagonizava os outros e todos aqueles que procuravam oprimir o valor intelectual alheio. Acreditava que a humildade aproximava as pessoas. A arrogância pseudointelectual dava-lhe vómitos. E eles eram tão vazios. Sabia, no entanto, que aquele não era um lugar de humildade, mas onde a ignorância e arrogância não encontram fronteiras de credo, cor ou estatuto. Pretensiosos que se achavam mais inteligentes que todos aqueles que eram tão imbecis quanto eles.

Não passava muito tempo a ressuscitar conhecimentos contidos em páginas bolorentas, nem sequer queria perder tempo com aquilo. Sentia-se um náufrago. Era como beber água salgada quando se anda à deriva no mar. Custava-lhe aceitar a ideia que estava a perder o seu valioso tempo. Mas se nem ali encontrara respostas, o que faria então? A única coisa que não o aborrecia e lhe dava algum estímulo era a ideia de psicanalisar todos aqueles ridículos e patéticos seres. Destruir-lhes as convicções fundadas em pensamentos que não lhes pertenciam. Era um inimigo natural daquela seita de vampiros do saber, receosos de qualquer contato com a luz. Habitantes da escuridão das mentes e arautos do conformismo escolástico.


Não respeitar esses pálidos seres foi o primeiro passo. Lentamente despia-se da moral e deixava a insanidade assumir o controlo. Sentia que naquele lugar apenas a diferença o reconfortava. E fez por ser diferente.


Eduardo de Montaigne part. I, part. II, part. III, part IV, part V, part VI



(Marco Bekk)

domingo, 12 de julho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

VI

Abandonava-se a furiosos debates com seus pares, porém, reconhecia que nunca conseguiria respeitar o que eles pensavam. Procurava vivências e ideias que o iluminassem e lhe revelassem um pouco mais acerca de quem era, não ideias que o irritassem.

 O percurso que encetava era perigoso e ardiloso, com sérias probabilidades de descobrir que a razão da sua existência podia não ser tão nobre como desejava que fosse. Apesar de tudo, continuava a olhar para o futuro com otimismo.

 Estava na hora de fazer escolhas. Decidira partir para uma catedral de conhecimento. Julgava que ali poderia ver todas as suas questões respondidas e estava suficientemente longe para poder dar asas à sua já galopante inquietude, longe de perturbações. Não compreendia tantas coisas, nada era certo, nada era óbvio.

O passado insistia em cuspir-lhe memórias adulteradas pelo tempo. Os seus demónios lutavam para assumir controlo, segredavam-lhe promessas de libertação e insinuações de caminhos melhores para a superação da angústia que sentia. Sonhava com quem o tinha abandonado. Já quase tinha conseguido esquecer-se. Porque continuaria a voltar?

Questionava-se sobre o que faria e para onde iria. Parecia tudo tão simples mas no entanto tão dramático. Gostava de voltar no tempo para poder impedir certas coisas e de avançar no tempo para fugir de outras. Não sabia sequer porque tinha condenado quem decidira escapar da vida. Talvez fosse mesmo impossível viver assim. Lembrava-se bem da expressão que o rosto carrega quando se desiste e se escolhe a precipitação para a autoaniquilação. Imagem que lhe ficara cinzelada nas memórias por intermédio de um escultor da desgraça.

Pedia ajuda a quem imaginava viver na penumbra, mas questionava-se…
- Porque te peço eu ajuda? Viveste desligado de tudo e desististe. Como posso sentir-me diferente quando tudo me empurra para a solidão e indiferença? Se estás aí mostra-me o caminho. Assombraste-me hoje, fizeste--me acordar com os olhos banhados em dor quase esquecida. Todos os dias sinto que aquilo que me tornava diferente de ti se extingue lentamente, porém já compreendo melhor porque te quiseste ir embora.

Aquele mau estar existencial tinha-se instalado há muito. Eram pequenas coisas que o impediam de ser sugado para o abismo, não obstante o desprendimento que já sentia. Sem dúvida que ignorância e esquecimento seriam felicidade. Lembrar é apelar ao desespero. Homens de curta memória vivem felizes, os outros têm um fardo muito pesado para carregar.


Partiu com as malas carregadas de dúvidas e sua loucura como companheira. Homem em rota de colisão. 

Eduardo de Montaigne part. I, part. II, part. III, part IV, part V


(Lana Sutra)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

V

Enquanto não compreendesse o seu papel na vida, dificilmente conseguiria partilhar fosse o que fosse com alguém. Tinha, apesar de tudo, guardado no canto mais escondido da sua alma, uma declaração de amor. A declaração de amor que não habitava nas palavras mas existia no olhar. Por muito ridículas ou românticas que as formas usadas para transmitir que amamos alguém sejam, serão sempre os olhos os mais eloquentes.
Foi ali que tudo começou. Foi no momento em que decidiu não perseguir a sua paixão mais doentia que parte da sua existência ficou determinada, contra tudo aquilo em que acreditava.
Amor! Não queria nada disso, rejeitava e renegava esse sentimento escravizante e narcótico, que ao não ser atendido convenientemente, podia levar à loucura. Seria um mero acaso tropeçar no amor. No entanto, quando assim é, sabemos de imediato que nada voltará a ser igual na nossa vida. Imaginava o peso da cruz do amar e não conseguia olhar mais além que isso.
Sabia descrever o amor, mas tal não lhe pertencia, era um intruso que o perturbava. Partilhar, significaria abdicar de toda a sua independência emocional, ficando reduzido a uma forma de loucura persistente e ilógica, acabando por nunca nada possuir e nunca encontrar paz. Seria essa a declaração da sua independência.
Era testemunha de um eterno retorno. A vida seguia o seu curso e continuava a trazer ecos de loucuras extremas há muito expiradas. A maior loucura era querer voltar a pertencer a esse passado e não ao futuro. Tão jovem e tantas questões ainda por responder. Tanto inconformismo e angústia existencial perigosamente agregados em alguém com diletante sentido de viver.
- O amor é só para alguns, não para todos. É a chama em que nos imolamos, desviando-nos para todo o sempre de tudo aquilo que poderia ter sido. Amor é fogo que ardeu, mas nem ferida que dói já é. Vacilou mas não morreu, viveu na mágoa, perdeu a fé.

Arredado de tais pecados, podia agora preencher a sua existência longe do paralisante magnetismo do amor. A compensação por escapar ao transe do contato terno iria eventualmente surgir. Não queria nada menos que exercer os seus ideais. 

Eduardo de Montaigne part. I, part. II, part. III, part IV


(Lana Sutra)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

IV

Sabia que uma das maiores fraquezas do ser humano era a programação inata para nos levar a sentir que fazemos parte de algo maior. Defeito que tem vindo a ser explorado por pessoas sem escrúpulos há já alguns milénios. Não acreditava no destino inexorável, mas nas ações orientadas pela nossa natureza associadas às nossas aprendizagens. Todavia, nem todas as aprendizagens seriam capazes de o demover em contrariar a sua natureza. A natureza de um leão é matar, um búfalo refugia-se no grupo, uma gazela foge, um camaleão camufla-se. Só os seres humanos possuem naturezas diferentes e aglutinantes, o que nos torna animais especiais. Alguns de nós matam, alguns refugiam-se nos outros, outros fogem, outros enterram a cabeça. Por ter essa intuição, sempre desejou ardentemente conhecer qual a sua verdadeira natureza, porém, tinha que deixar que as suas inclinações o orientassem naturalmente, mesmo que por vezes tivesse que trair a sua razão.


Assim que chegou à encruzilhada em que teve que escolher um rumo, fez uma escolha baseada em pressupostos errados. Procurava sempre ser objetivo e assertivo, todavia perdera de vista a lógica assim que decidira namorar o romantismo. Dera consigo a concordar com Voltaire. O amor era mesmo, de todas as paixões, a mais forte. Afetava simultaneamente a mente, o coração e os sentidos. Como ser feliz então, quando tudo em nós se queda a respirar uma única emoção? Decidira que era um percurso fadado à tragédia. Estava convencido que todo o amor era, eventualmente, impossível.

Eduardo de Montaigne part. I, part. II, part. III


(Lana Sutra)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

III

Jamais uma vida fora tão idiossincrática. Já tinha sido o centro do universo e tudo lhe fora permitido sem qualquer tipo de sanção. Uma juventude vivida com liberdade irresponsável e copioso libertinismo, embalando-o inexoravelmente para a mais agridoce das armadilhas humanas. Todas as tristezas e desilusões originaram-se num pobre planeamento de prioridades. Tudo teve para ser feliz, só não queria aquela felicidade de conformismo existencial inconsequente. Todos os seres humanos são dotados de uma grande capacidade de adaptação, o grande problema reside na incapacidade da sociedade se adaptar a nós. Todos o fizeram sentir que deixava escoar o tempo sem nunca fazer nada de importante. Queria apenas fazê-lo à sua maneira, e tinha ali, talvez, a sua última oportunidade de mostrar ao mundo que não era apenas uma alma perdida.

Aspirava a que do seu interior brotassem ideias e pensamentos que explicariam o que a maioria vê apenas como interrogações. Achava a sua visão do mundo incorruptível. Era-lhe inata a capacidade para descobrir as motivações dos outros através da sua afiada e cultivada capacidade de análise. Poucos segredos permaneciam secretos quando capturavam a sua atenção obsessiva. Compreendia o lado material humano e as suas grandes fraquezas, não obstante, deixava a sua própria condição engoli-lo sem qualquer oposição racional. Achava que, se essa era a sua natureza, não devia contrariá-la. Queria descobrir onde ela o levaria. Tudo estaria programado no seu ser, apenas teria que seguir as suas inclinações e desejos, e, desse modo, preencher a sua existência com a essência que lhe era devida.

Eduardo de Montaigne part. I, part. II


(Lana Sutra)

sábado, 6 de junho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

II

Havia por ali um pequeno paraíso que conhecia desde criança e para onde poderia ir. Era um lugar onde fora feliz. Tranquilizava-o estar ali. Principalmente quando a sua ansiedade o fazia precipitar numa inaptidão em digerir desesperos e crises.

Debruçava-se sobre um pequeno riacho que ali se espreguiçava. Via o reflexo que se formava à superfície, distorcido pela corrente e só possível pela presença de pedras escuras no fundo. A água era fria e cristalina. Até ela fugia rapidamente da nascente na tentativa de encontrar algo maior.

Olhava para si mesmo enquanto procurava resistir dialeticamente aos seus pensamentos. Procurava fundir-se com a pureza da água numa tentativa de ablução. A força que movia a água era uma máscara, impedia que se olhasse nos olhos. Tinha medo da sua própria imagem. O seu devir teria que acontecer, ele apenas não sabia como.

O passado lutava para assomar na sua mente. Nunca conseguiria esquecer e de nada adiantava lamentar. O destino era algo que desafiava a sua lógica. Travava uma incessante batalha para provar que nada acontece por algum tipo de desígnio. Tudo estaria, sempre, nas nossas mãos. No entanto, o curso da água nunca se inverteria. O seu tempo esgotava-se, tudo o que poderia ter sido diferente agora não passava de um mero universo paralelo, pleno de possibilidades por realizar.

Recusava conformar-se em aceitar a ideia da sua própria fragilidade e finitude. Achava que tinha que haver uma solução para tudo, mesmo para as suas dúvidas. Por breves momentos desprendia-se dos seus funestos pensamentos e respirava profundamente. Tentava deixar-se invadir pela paz do cenário exterior a si, como se a beleza que contemplava, pudesse, de alguma forma, tornar menos lúgubre o seu interior. Não tinha muita fé em limpezas existenciais, acreditava que as nossas inclinações levam sempre a melhor. Sabia que a grande cegueira nunca foi não poder ver, apenas não querer sentir.

Assumia que a verdadeira felicidade é já não ter nada com que nos importemos. Havia, porém, muitas coisas que ainda precisavam de ser explicadas. Nem o livre arbítrio nem a crença num destino determinado eram suficientes para responder aos seus anseios.


Eduardo de Montaigne part. I


(Lana Sutra)

terça-feira, 2 de junho de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

I
O possível filósofo

A maldição da Curiosidade e da Dúvida

Sobre os perigos da Perceção e do Existir

Agressividade – Afetividade – Aflição – Alegria – Altruísmo – Ambivalência – Amizade – Amor – Angústia – Ansiedade – Antipatia – Antecipação – Apatia – Arrependimento – Arrogância – Autopiedade – Autodestruição - Avareza – Bondade - Bem-aventurança – Benevolência – Carinho – Castigo – Cobiça – Compaixão – Confusão – Ciúme – Constrangimento – Coragem – Culpa – Curiosidade – Contentamento – Depressão – Desabafo – Deslumbramento – Desprezo – Dó – Dor - Deceção – Dúvida – Desejo – Desapontamento – Egoísmo – Empatia – Esperança – Euforia – Entusiasmo – Epifania – Excitação – Expectativa – Fanatismo – Felicidade - Falsidade – Frieza – Fraqueza – Fracasso – Frustração – Gratificação – Gratidão – Histeria – Hostilidade – Humor – Humildade – Humilhação – Incómodo – Inclinação – Impaciência - Indolência - Inspiração - Interesse – Indecisão – Inveja – Ira – Isolamento – Mágoa - Mau-humor – Medo – Melancolia – Nojo – Nostalgia – Ódio – Orgulho – Paixão – Paciência – Pânico – Pena – Pesar – Piedade – Possessividade – Prazer – Preguiça – Preocupação – Paz – Raiva – Receio – Redenção – Remorso – Repugnância – Resignação – Ressentimento – Saudade – Simpatia – Soberba – Sofrimento – Solidão – Surpresa – Susto – Tranquilidade – Tédio – Temor – Terror – Timidez – Tristeza - Vaidade – Vergonha – Vício - Vingança – Violência…

Afinal, o que é a inteligência senão o domínio das emoções e sentimentos…

Os olhos vagueavam em busca de algo que o ajudasse a resistir a todas as vozes que insistiam em permanecer na sua cabeça. Das ruas ecoavam sons e palavras incompreensíveis, assemelhavam-se a murmúrios de seres fantasmagóricos, que deambulando sonolentamente na vida, ignoravam a sua própria condição. Longe de serem janelas da alma, os seus olhos baços evocavam claraboias de uma prisão.
Acordara sufocado no próprio vómito. Ultimamente os pesadelos eram recorrentes e vívidos. A sua mente reconstruía-lhe imagens que tentava ignorar a todo custo, infelizmente, os níveis da consciência são celas intrincadas que nos acorrentam às memórias.

A escuridão da sua alcova emanava um odor fétido. Era um odor a ser quase humano. Precisava sair dali.

Eduardo de Montaigne


(Lana Sutra)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

QI vs QE - Programas de aprendizagem social e emocional

No seu livro de 1996, Inteligência Emocional, Daniel Goleman sugeriu que o QE (Quociente de Inteligência Emocional) poderia ser até mais importante que o QI. Porquê? Alguns psicólogos acreditam que as quantificações padrão da inteligência são demasiado limitadas e não abarcam toda a extensão da inteligência humana. Ao invés, sugerem que, a capacidade de compreender e expressar emoções pode desempenhar um igual ou mais importante papel na forma como as pessoas atravessam as suas vidas.

Qual a diferença então entre QI e QE?

QI é um número que deriva de um teste de inteligência estandardizado. Nos testes de QI originais, os resultados eram calculados dividindo-se a idade mental dos indivíduos pela sua idade cronológica, e, posteriormente, multiplicando esse número por 100. Uma criança com a idade mental de 15, e uma idade cronológica de 10, teria um QI de 150. Hoje em dia, os resultados são calculados, na maioria dos testes, comparando o resultado do teste por oposição aos resultados de outras pessoas do mesmo grupo etário.
Por outro lado, QE é uma medida do nível de inteligência emocional de alguém. A capacidade que a pessoa tem em percecionar, controlar, avaliar e expressar emoções. Investigadores como John Mayer e Peter Salovey, a par de escritores como Daniel Goleman, ajudaram a trazer luz à inteligência emocional, tornando-a um tópico quente, em áreas que vão desde a gestão empresarial até à educação.
Desde os anos 90 que a inteligência emocional passou de algo obscuro à popularidade. Já é possível encontrarem-se brinquedos cujos fabricantes alegam que estimulam a inteligência emocional da criança e programas que reivindicam ensinar competências relativas à inteligência emocional. Nos EUA, existem inclusivamente escolas que apresentam currículos de aprendizagem social e emocional.

Qual o mais importante então?

Em dado momento, o QI era visto como a determinante primária de sucesso. Assumia-se que as pessoas com alto QI estavam destinadas a vidas de conquistas e realizações. Muitos Investigadores têm vindo a debater se a inteligência é produto dos genes ou produto ambiental. Alguns críticos começaram a perceber que a alta inteligência não era garantia suficiente de sucesso na vida, como também era um conceito demasiado redutor para incorporar toda a gama de conhecimentos e habilidades humanas.
O QI continua a ser um importante elemento de sucesso, nomeadamente no que diz respeito a sucesso académico. Pessoas com QI alto têm habitualmente bons resultados na escola, ganham normalmente mais dinheiro e tendem a ser geralmente mais saudáveis. Todavia, alguns peritos reconhecem que não é o único determinante de sucesso na vida. É apenas parte de uma complexa teia de influências onde se inclui a inteligência emocional, entre outras.

O conceito de inteligência emocional tem tido um grande impacto num crescente número de áreas, incluindo o mundo dos negócios. Muitas empresas começaram a incorporar nas suas estruturas o treino e estimulação da inteligência emocional, começando a usar testes de QE como parte do processo de contratação. Investigadores têm vindo a descobrir que indivíduos com forte potencial de liderança tendem também a ter maior inteligência emocional, sugerindo que um alto QE é igualmente importante para líderes e gestores empresariais.

É evidente que aqui se levanta uma questão: Se é tão importante, pode ser ensinado ou reforçado? Olhando para os resultados dos programas de aprendizagem social e emocional, parece que sim. Cerca de 50% dos miúdos que aderiram a estes programas, como é exemplo no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, entre outros, tiveram melhor aproveitamento. Estes programas deram indicações de menores taxas de suspensões, menores taxas de faltas à escola, menor número de problemas disciplinares. Alguns psicólogos chegam a afirmar que o QI conta apenas de 10 a 25 % como determinante do sucesso, dependendo o resto dos outros fatores, onde se incorpora o QE.

Não deveria isto ser uma prioridade também para Portugal? Ao invés de sermos afrontados com um modelo educativo pautado pela obsessão em examinar e avaliar indiscriminadamente, onde se valoriza apenas a matemática e a língua mãe, com o único intuito de poupar e desinvestir na educação, deveríamos ter nos núcleos de decisão para a educação em Portugal, alguém cuja sensibilidade e inteligência emocional estivesse, ela mesma, desenvolvida. Infelizmente, os líderes educativos do nosso país, de onde se destaca o ministro Nuno Crato, são verdadeiros aleijões emocionais, cujo verdadeiro objetivo não é melhorar a educação, mas descartar do estado a responsabilidade de providenciar aos seus cidadãos o melhor caminho para desenvolver as suas crianças e jovens. Talvez não fosse má ideia olhar para os programas de aprendizagem emocional e social que já são implementados nesses países, e tentar criar um modelo educativo proporcional à nossa realidade, onde a estimulação das capacidades dos nossos alunos fosse além do saberem falar bem a língua e serem bons com números. Algo que parece ter ficado bem claro nas políticas educativas de um homem que foi escolhido para ministro da educação devido ao seu talento em efetuar escolhas atirando moedas ao ar.

Eduardo de Montaigne 


(Nirav Patel)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

A hipnose social
4. O triste presente


Chegamos assim à atualidade, e nomeadamente àquilo que se passa no nosso país. Toda a evolução política e económica desde que a humanidade existe chegou ao seu auge. É evidente que o conceito de solidariedade morreu. É evidente que nos iludem com contos de fada. A natureza humana busca poder e riqueza, e isso é incontornável. Muitos de nós sofrem pelos erros e pela ganância e estupidez de outros. Muitos de nós são escravos, muitos são enjeitados, muitos são vítimas, a maioria sobrevive por solidariedade alheia. Alguns são imorais, alguns são corruptos e desonestos, alguns são incompetentes e idiotas, a maioria destes, vive principescamente. 

Não há um sistema político ou económico perfeito. Nunca haverá. O máximo a que podemos aspirar é que pessoas individuais, que ocupem cargos de decisão social, sejam menos tentadas pela sede de poder e de riqueza e pelos lobbies, e que sejam cada vez mais morais. Devem pensar prioritariamente na dignidade de todos os cidadãos, independentemente da ideologia política que os move. Não somos porém todos iguais. Quem se esforça mais deve ter mais. Todavia há limites. Quem se esforça mais, por ser mais inteligente, mais afortunado ou mais dedicado, vai eventualmente ter mais do que aquilo que precisa. Solidariedade social não é dar esmola. É permitir que todos possam ter um papel ativo na sociedade. Acima de tudo, todos devem ter acesso ao trabalho. Sem trabalho tudo o resto desmorona. Com trabalho previne-se a miséria e o crime. Criar trabalho, ou seja, integrar todos os cidadãos na sociedade, deve ser a tarefa do estado e dos governos. O governo é um grupo de representantes do povo para solucionar os problemas do povo. Os nossos governos têm sido, e são, grupos de raposas a quem foi pedido para guardar o galinheiro. É neste contexto que devemos apoiar as nossas reflexões e decisões. Já chega de lamentações. A hipnose eleitoral tem que acabar. Se os nossos representantes tivessem um pingo de dedicação, a miséria seria reduzida. Com dois pingos, todos viveríamos em dignidade. Com três pingos, talvez pudéssemos ser felizes. Deve sempre haver combate político e ideológico. No entanto, um fervoroso não às maiorias e um esperançoso sim à maior democracia participativa. 

Tudo o resto é ser ovelha. Muitos acham que se o nosso planeta fosse invadido por E.T.´s a espécie humana unir-se-ia numa causa comum. Na verdade, em algumas semanas, os E.T.´s prescindiriam do esforço de luta e venceriam a guerra. Bastaria oferecer alguns benefícios a quem se juntasse a eles, e esses trairiam todos os outros.

Eduardo Montaigne
Parte 1
Parte 2
Parte 3


(Liane Lang)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

A hipnose social 
3.    A esquerda e a direita


A direita é marcada pelo conservadorismo social e do governo, defendendo os direitos individuais e os poderes sociais, colocando valores religiosos e tradicionais como essenciais para a construção de uma sociedade moralmente decente, limitando qualquer tipo de reforma social nesse aspeto. Ou seja, os políticos e grupos "de direita" representam todos os interesses das elites e classes economicamente dominantes de um país.

A esquerda política é o grupo de pessoas ou de partidos que defendem os ideais do socialismo, em oposição ao capitalismo e a regimes de direita. Em geral, as suas atividades centram esforços na defesa de cidadãos em desvantagem e acusam o sistema capitalista como maior causador das desigualdades sociais. Para eles, essas diferenças são injustificáveis e precisam deixar de existir.

A origem dos termos esquerda e direita remete ao período da Revolução Francesa. Naquela época, essas designações refletiam a posição ocupada pelos políticos no parlamento. Os que ficavam à direita do presidente representavam a situação, os da esquerda eram os insatisfeitos. A utilização do termo esquerda ganhou mais notoriedade depois que a monarquia foi restaurada na nação francesa.

A partir da década de 1990, quando o regime socialista da URSS entrou em colapso, os adeptos da esquerda começaram a questionar-se a respeito de sua aplicabilidade e eficiência. Por outro lado, os Estados Unidos dominavam quase todo o mundo, expandindo o capitalismo, e a direita não conseguiu provar a legitimidade do regime devido à desigualdade social que a sua aplicação provocava. 

Eduardo Montaigne
Parte 1
Parte 2


(Liane Lang)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

A hipnose social 
2. Alguns conceitos ideológicos da modernidade

Socialismo é uma doutrina política e económica que surgiu no final do século XVIII e que se caracteriza pela ideia de transformação da sociedade através da distribuição equilibrada de riquezas e propriedades, diminuindo a distância entre ricos e pobres. No sistema socialista não deveria haver classes sociais nem propriedade privada. Todos os bens e propriedades particulares seriam de todas as pessoas e haveria repartição do trabalho comum e dos objetos de consumo, eliminando as diferenças económicas entre os indivíduos.

Problema que o socialismo levanta: Para quê esforçarmo-nos se todos ganhamos o mesmo?
O socialismo é oposto ao capitalismo, cujo sistema se baseia na propriedade privada dos meios de produção e no mercado liberal, concentrando a riqueza em poucos.

A Revolução Russa de 1917 foi um evento que fragmentou os socialistas. A partir de então, os socialistas revisionistas passaram a ser chamados de sociais-democratas e os ortodoxos passaram a ser chamados de comunistas. Diferença que se solidificou na década de 1920 e em diante.

A chamada Terceira Via surgiu na Itália, representando uma aliança dos sociais-democratas com os partidos de centro. A pauta de muitos desses partidos trocou a justiça social por questões de direitos humanos e preservação ambiental, respondendo e conciliando-se com os apelos dos chamados Partidos Verdes. Infelizmente, o flirt com o neoliberalismo resultou numa crise de identidade.

Em linhas gerais, a Social-democracia defende a liberdade em todos os sentidos, a igualdade, a justiça social e a solidariedade. Ou seja, o objetivo é tornar o capitalismo mais igualitário. Atualmente, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega são os países que mais refletem esta proposição.

Eduardo Montaigne
Parte 1


(Liane Lang)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Espaço do Correspondente - Underground Soldier

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

A hipnose social
1. A máquina do tempo



Informo os estimados leitores que regressámos ao passado para compreender o presente e evitar a depressão com o futuro. Explico…

A economia no Paleolítico era de subsistência, ou seja, não se acumulavam alimentos nem se produzia para o comércio, mas apenas para a sobrevivência do grupo. Os bens de produção do grupo, ferramentas, utensílios, eram de propriedade coletiva. Os homens organizavam-se em pequenos grupos, cuja liderança era do mais forte e experiente. Aos homens cabia a tarefa de caçar, pescar e proteger o grupo. As mulheres tinham como função preparar o alimento e cuidar dos filhos. A vida neste período baseava-se na caça de animais, pesca, coleta de frutos, folhas e raízes. Os homens neste período eram nómadas. Durante o período Paleolítico a humanidade evoluiu lentamente. Os objetos fabricados eram rudimentares e o modo de vida era dependente do meio natural. 

Há cerca de dez mil anos, registou-se porém uma profunda transformação. O Homem descobriu a agricultura e começou a domesticar e a criar animais. Ao não necessitar de se deslocar para obter alimentos, os grupos humanos fixaram-se numa região e, dispondo progressivamente de melhores meios para criar maior riqueza, tornaram-se cada vez mais numerosos.

Chega-se à Idade Média e acontecem novamente transformações. A implementação do Feudalismo como modelo económico. Assentava principalmente na agricultura, realizada nas grandes propriedades rurais. As trocas de produtos e mercadorias eram comuns na economia feudal. A produção era baixa devido aos instrumentos serem extremamente rudimentares. Embora o comércio existisse, não era uma atividade predominante. Apesar da pouca utilização, as moedas exerciam um papel fundamental nas trocas monetárias. O feudo era a base económica deste período: quanto mais lotes de terra se possuía, mais poder se adquiria. 

O feudalismo era o modo de produção utilizado durante a Idade Média para sobrevivência. Começa aqui a construir-se mais vincadamente uma organização social que estabelecia o lugar que cada pessoa deveria ocupar. Naquela época havia muitos ataques de invasores e a população mais carente começou a obedecer aos mais ricos de determinada região para usufruir de proteção. Os camponeses viravam servos desses senhores ofertando seus alimentos e terras. Os servos tinham como obrigação servir e entregar a maior parte dos alimentos que produziam. As suas terras eram emprestadas aos senhores e a servidão era passada de pai para filho. Os nobres recebiam o nome de senhores feudais e eram donos dos feudos, locais seguros, onde eles produziam a própria comida. Começou aqui a cobrança institucional de impostos.

Um dos impostos cobrados era a talha, onde tudo que era produzido era repassado ao senhor feudal. Também havia um imposto para se poder utilizar os moinhos e fornos do senhor. Os filhos que herdavam a servidão dos pais tinham que pagar o imposto da Mão Morta como imposição para continuar servir o senhor.

A crise do sistema feudal começou no século XI. A expansão da agricultura, a ampliação das áreas para o cultivo, como bosques e pântanos, geraram um crescimento populacional fortíssimo. Esse crescimento populacional acarretou o aparecimento de vários problemas sociais como o banditismo, miséria, e guerras internas por mais terras. 

Depois vem o Mercantilismo, doutrina de pensamento económico que prevaleceu na Europa durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Propunha que o governo devia exercer um controle férreo sobre a indústria e sobre o comércio para aumentar o poder da nação, ao conseguir que as exportações superassem em valor as importações. O mercantilismo era um conjunto de sólidas crenças, entre as quais cabe destacar, que era preferível exportar para terceiros a importar bens ou comercializar dentro do próprio país. Havia a convicção de que a riqueza de uma nação depende sobretudo da acumulação de ouro e prata, e a justificação da intervenção pública na economia visava isso mesmo, acima de tudo. Com os descobrimentos das Américas e a cada vez maior exploração através da navegação, atingiu-se o auge.

Eduardo de Montaigne


(3D on the Rocks)

terça-feira, 14 de abril de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

Das fraquezas aos fracassos
Parte 2

Existir, é um processo onde somos condicionados pelas nossas fraquezas e virtudes, na contínua tentativa de superação de obstáculos. Os fracassos são as atualizações existenciais. Existem para consolidar a nossa evolução e permitem-nos ver o lado negativo que pretendemos evitar ou superar. Só assim se torna possível transmitir às gerações vindouras a fórmula de como ultrapassar certos problemas, e, pouco a pouco, descobrir uma forma de exercer a existência com um propósito mais abrangente.
Existir é um verbo com uma enorme paleta de cores. Ser e estar é redutor face à possibilidade de existir. Em última instância, tentamos chegar a um nível existencial que nos aproxime da possibilidade de controlar efetivamente o espaço que nos rodeia, de modo a garantir a sobrevivência da própria espécie no plano universal.

O facto de possuirmos naturezas e inclinações distintas dos outros faz com que consigamos tecer uma teia de experiências suficiente para gerar conhecimento e aculturação. Só a transmissão dos conhecimentos gerados pela superação de fracassos pode garantir que existe evolução enquanto indivíduos e enquanto espécie.
O facto de sermos altamente especializados é o que nos distingue dos outros seres vivos. Existem espécies que constroem uma teia de especialização onde se atribui a cada indivíduo um papel específico, mas nada comparável ao grau de sofisticação do humano. Os nossos talentos, apesar de nascermos já com algumas potencialidades, sofrem uma aculturação e educação, de modo a podermos desempenhar papéis muito diferentes na sociedade. É esta diversidade existencial, que congregada, nos torna a mais complexa comunidade à face da terra.

 A capacidade de pensar pode conduzir-nos à ideia que só por isso existimos. Todavia, existir sem essência é das piores frustrações que um ser humano pode viver. Nem sempre somos capazes de distinguir o bem do mal e nem sempre somos capazes de escolher os melhores caminhos a tomar. A única certeza que podemos ter é que o caminho para a compreensão do nosso lugar no mundo é feito de espinhos e obstáculos. Significa que o homem primeiramente surge no mundo com uma existência, autodescobre-se, sofre uma aculturação, e só depois se define.
O indivíduo, inicialmente, tem apenas a existência comprovada. Com o passar do tempo, incorpora a essência no seu ser. Não existe uma essência pré-determinada. Desta forma, rejeita-se a ideia de que há no ser humano uma alma imutável, desde os primórdios da existência até à morte. Essa essência é adquirida através da existência. A nossa realidade é definida por cada um de nós.

O homem é difícil de definir, porque inicialmente não é nada. Só depois será, e será aquilo que de si próprio fizer. Talvez muitos de nós tenham motivos para estimar a ideia de uma religião ou da existência do divino ao leme das nossas vidas, no entanto, e com grande pesar para mim, quem assim pensa, ou foi ludibriado ou nunca quis ter o trabalho de refletir. A terceira alternativa… é ser idiota.

"O importante não é o que fazemos de nós, mas o que nós fazemos daquilo que fazem de nós." 

JEAN PAUL SARTRE


Eduardo de Montaigne
Parte 1


(Marat Safin)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

Das fraquezas aos fracassos
Parte 1

A nossa existência, independentemente das escolhas que façamos, é profundamente marcada pelas nossas paixões e pelas nossas dúvidas. Todos trilham porém percursos diferentes. O que nos distingue verdadeiramente é a nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros e compreendermos o nosso papel no mundo.

Antes de adquirirmos a nossa identidade, temos inicialmente uma existência. Essa ideia garante a liberdade e a responsabilidade do homem, pois existimos sem que sejamos pré-definidos. Durante a nossa existência vamos experimentando novas vivências e redefinimos o próprio pensamento e modos de agir. Adquirimos novos conhecimentos e experiências, que são a matéria-prima que constrói a nossa própria essência e a caracteriza. Esta particularidade de ser é fruto da liberdade que possuímos. 

Ceder aos vícios e paixões como forma de adquirir essência é também tipicamente humano. Falhar, é igualmente humano. Tem sido no entanto a grande ferramenta que impulsiona a evolução. Se não falhássemos e tudo evoluísse desprovido de erro, nunca nos tornaríamos verdadeiramente humanos. Nunca saberíamos valorizar as nossas aprendizagens e tornar-nos-íamos autómatos emocionalmente limitados.

Fracassar pode originar dois tipos de comportamento:

Por um lado, podemos sentir-nos angustiados e desistir de tentar evoluir. Por outro, motiva-nos a superar as nossas próprias expectativas.

O que faz com que um ser humano reaja de uma forma ou de outra está dependente de múltiplos fatores: A nossa química cerebral, as nossas aprendizagens, os nossos valores, a necessidade premente de sucesso, o mero acaso.

Podemos enumerar múltiplas razões para justificar a adoção de posturas perante o fracasso, mas, de forma alguma, devemos desvalorizar o fracasso como sendo intrinsecamente negativo. O fracasso é sem dúvida um dos motores que impulsiona civilizações, é o que faz com que exista necessidade de evolução. Se tudo o que fazemos fosse perfeito, não teríamos chegado a ser a mesma espécie que reconhecemos hoje como humana.

O fracasso é frequentemente originado pelas nossas paixões, todavia, o sucesso também o é. Não são as nossas paixões que determinam a nossa evolução negativamente. Se essas paixões se constituem por vezes como fraquezas, é na sua superação que encontramos o sentido da palavra evolução.


Evoluir significa passar de um estado a outro. Viver assim implica o fracasso como parte fundamental da evolução. O que somos hoje não é mais que a soma de milhares de adaptações e evoluções. Se não houvesse necessidade de evolução, a felicidade seria divergente do conceito que dela temos agora.

Eduardo de Montaigne 


(Théo Gosselin)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Espaço do Correspondente - Eduardo de Montaigne

As palavras, filtros da realidade
Parte 2

Numa era de globalização, onde conseguimos absorver todo o tipo de comportamentos, de praticamente todas as comunidades existentes à face da terra, conseguimos conhecer as razões e motivações de quase todas as culturas através dos novos meios tecnológicos ao dispor. Somos portanto, seres com uma capacidade de acesso à informação invulgarmente profunda, comparativamente àquilo que acontecia há apenas algumas décadas atrás. No entanto, e numa perspetiva social e prática, aquilo que é importante não é exatamente o lado gramatical, sintáxico ou lexical da linguagem. O verdadeiro interesse está naquilo que se faz na prática social ou psicológica do discurso, a maneira pela qual é utilizada a linguagem, a dinâmica entre o uso da linguagem e as relações sociais.

 A linguagem é a responsável na produção da história humana, da qual é, ao mesmo tempo, um produto. Tudo se processa como se houvesse inicialmente a consciência, que depois se apoia na linguagem para se expressar. A consciência do ser humano é obrigada a arrancar materialidade da língua, para construir um corpo suficiente para expressar emoções, raciocínios e construções mentais, sejam de origem lógica ou metafísica.

Se a existência humana é marcada pelas nossas paixões, desejos e pensamentos, a forma de expressar tudo isto assume importância fundamental. Assim como me basta o olhar para expressar o sentimento de desejo, o mesmo não acontece quando pretendo expressar pensamentos. Preciso realmente desse código que me foi dado por outros e que está em permanente evolução.

Herdámos basicamente todas as palavras. Poucos de nós podem dizer que criaram algum tipo de legado linguístico. O que vemos com frequência são indivíduos que tentam desvirtuar a riqueza da língua. Simplificar nem sempre significa enriquecer. Se, como dizia Jean Paul Sartre, ”nós somos aquilo que fazemos com o que os outros fizeram de nós”, nada mais óbvio que a linguagem para representar essa ideia.

O conhecimento histórico ou literário é um exemplo claro de que a compreensão não é nunca uma pura atualização de signos e conteúdos mortos, depositados em obras escritas. Compreender um texto ou fragmento do passado é, de fato, entendê-lo a partir da questão que ainda hoje ele nos suscita: um processo de contínua fusão ou alargamento de horizontes, como defendia Hans-Georg Gadamer.

A linguagem é simbólica, todavia, todas as motivações que estiveram na origem da sua criação são constantemente revistas e atualizadas pelos novos utilizadores de certa linguagem. De modo mais simples, a nossa linguagem é o modo como canalizamos as nossas ideias, seria de esperar que à medida que as nossas ideias se complexificam, o mesmo aconteceria à linguagem, para poder acompanhar a riqueza cognitiva do ser humano. Todavia, quando falo em simplificar a linguagem, não pretendo afirmar que a tornemos mais básica. A linguagem assume, cada vez mais, tarefas específicas, daí a necessidade de se refinar. Há cerca de 500 anos atrás, a linguagem assumia outros contornos, visto a evolução do ser humano encontrar-se em estádios diferentes. Na verdade, a linguagem tem uma vertente existencial tão vincada como o próprio ser humano que a criou. Não podemos ver na sua simplificação semiológica um mero defeito, mas compreender que quando isso acontece, significa que o ser humano necessita de algo acrescido àquilo que já possui de forma a poder expressar-se com mais fidelidade relativamente às subjetividades que se formam na sua consciência e pensamento.

A nossa humanidade carrega o fardo de todas as convenções criadas até ao presente. Assim, como só um artista extraordinário consegue materializar uma ideia que não faz parte do mundo a que chamamos de realidade, só um poeta ou um filósofo têm a capacidade de criar linguagem que transfigure emoções e sentimentos até então fechados a uma verbalização. Recriar não é o mesmo que criar. Atribuir símbolos linguísticos mais complexos a emoções e pensamentos ambíguos é o objetivo de todo e qualquer um que se devote à filosofia.

Descrever com palavras é apenas uma mera tentativa de traduzir realidades. Ao contrário da matemática e do teorema, as palavras do poeta, do filósofo, do político, são virtualmente as mesmas, no entanto, a realidade que as inspira não podia ser mais diferente.

Eduardo de Montaigne 
Parte 1


(Mikitype)

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