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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Uma visão sobre o trabalho docente - Parte 3



Parte 3 - A ser assim, por que é que os decisores políticos não assumem publicamente e de forma transparente a não retenção dos alunos para podermos finalmente avançar? 

Já perdi a conta ao que escrevi e reescrevi nesta parte, dada a complexidade que o tema abarca. Sejamos claros, as retenções dos alunos não são aceites, nem pela tutela, nem pelo poder político, nem mesmo pela sociedade civil. Os primeiros, porque vêem nisso os falhanços da implementação das suas reformas políticas; os segundos, porque a retenção do aluno tem um custo para o orçamento de estado e para o contribuinte; os terceiros, porque vêem retidos os seus educandos e pagam impostos, pelo que tal não pode ser aceite. 

Isto cria desde logo um problema para os docentes que acabam por ficar aprisionados neste contexto actual. Existem alguns aspetos que não podem ser esquecidos: não se pode ensinar quem não quer ser ensinado, não existem estratégias infinitas e, por último, não se consegue ensinar sem condições para tal. E é deste ponto que partimos para o problema das retenções. Só os professores que fazem o impossível nas escolas sabem verdadeiramente a frustação de chegar ao 3.º período e ver a sua proposta de nota votada pelo conselho de turma para o aluno transitar por alegadas pressões de terceiros ou supostas orientações da tutela para tal. 

Já é mau o suficiente um professor validar a retenção de um aluno, não é um processo fácil para ninguém, cada caso é um caso e não se confina apenas à Matemática do Excel. Há inúmeros motivos para um aluno ter insucesso, não se reduzindo apenas ao facto de não estudar (como expliquei na primeira parte deste texto). Mas estou a falar de casos de alunos que claramente não querem estar na escola, inadaptados, conflituosos, niilistas e, por vezes, violentos (aqui). 

Reter um aluno é admitir que o trabalho do docente fracassou e que a escola falhou, mas também que os encarregados de educação falharam. O docente falhou porque não conseguiu motivar o aluno a ter o mínimo sucesso possível; a escola falhou porque não deu as condições ao professor e ao aluno para o sucesso; e os encarregados de educação falharam porque provavelmente não conseguiram motivar os seus educandos para estudar ou para dar uma oportunidade à escola. 

Mas então por que é que o professor perde a opção de reter o aluno? Ou de o mesmo transitar, embora com os níveis negativos em pauta (sejam quantos forem)? 

Temos que perceber que todos os caminhos traçados (li duas sugestões aqui e aqui) apenas levarão a mais burocracia e trabalho acrescido para os docentes, porque o resultado já é esperado: o aluno tem que transitar (como escrevi nas duas partes anteriores). 

O caminho a seguir não é fácil e todos os que surgirão a partir da flexibilidade curricular serão altamente complexos e provavelmente criticáveis (aqui). Não tenho uma resposta para a retenção dos alunos ou para a indisciplina crescente no sistema de ensino. Sei apenas que tudo seria mais fácil se houvesse verdadeiramente uma aposta maior na educação e, dessa forma, as coisas poderiam ser muito diferentes. Lanço assim algumas sugestões:


- alteração do modelo de gestão das escolas para um modelo mais democrático; - revisão e alteração dos currículos, "limpando-os" da sobrecarga que actualmente possuem (sobretudo no primeiro ciclo e, partindo daí, para todo o ensino básico), sendo esses gizados para serem mais graduais, com mais tempo para aprender;



- reduzir a burocracia nas escolas;



- aposta em mais crédito horário nas escolas para haver mais apoios (logo desde que as dificuldades de aprendizagem se manifestam) e para mais supervisão de indisciplina;

- mais aposta de meios na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ);

- aposta em mais assistentes sociais em todas as escolas;

- aposta em mais psicólogos nas escolas;

- possibilidade de se poder dividir turmas e de contratar professores para que os alunos sinalizados como potencialmente indisciplinados e/ou de fraco rendimento possam ser devidamente apoiados e supervisionados, retirando-os das turmas e criando turmas de nível temporárias;

- aposta em espaços mais lúdicos nas escolas e mais tempo para brincar;

- aposta em criação de projectos de arte na escola, de espaços para criar música, de espaços para realizar desportos como forma de diminuição da indisciplina;

- a escola criar condições para os alunos realizarem os trabalhos de casa ou um estudo extra-aula de forma apoiada (e também a possibilidade de os alunos brincarem, em vez de irem obrigatoriamente para os ATL);

- reestruturar os Cursos de Educação e Formação, já que como estão actualmente são, muitas vezes, um nicho para os alunos indisciplinados;

- criação de um programa europeu de intercâmbio de experiências/formação para os docentes.



Querem criar um verdadeiro sucesso educativo? Então tem que se apostar na Educação e não atulhar o sistema com as mais diversas reformas educativas sem se saber para onde caminhamos e, sobretudo, sem se reparar os males que permanecem. Libertem finalmente os professores para poderem fazer aquilo para que foram formados: ensinar. Sem subterfúgios e com uma agenda clara. 


Parte 1- O desafio e a complexidade do trabalho docente sob uma evidente falta de cultura de escola (aqui)


Parte 2 - Avaliação dos alunos que faz "reféns" os docentes (aqui)



(Arquillect)




Uma visão sobre o trabalho docente - Parte 2



Parte 2 - Avaliação dos alunos que faz "reféns" os docentes 


Ser professor é uma autêntica missão. Nem todos a sentem dessa forma, é verdade, mas é uma missão que vem com todo o tipo de "bagagem" que faria qualquer um pensar duas vezes antes de falar do trabalho do professor como um privilégio ou sequer aceitar a tarefa de ser docente. Até porque, para se ser um docente minimamente estável na profissão nos dias de hoje, tem de se passar por muitas décadas de precariedade (se não desistir antes de conseguir ambicionar o tal "oásis" da estabilidade).  

Estamos a falar de um trabalho que traz com ele as mais diversas siglas que mudam todos os anos, legislação em catadupa que exige um acompanhamento digno de juristas, relatórios e grelhas de toda a espécie. Estamos a falar de um trabalho que nos acompanha para onde quer que vamos, ele está sempre presente em nós e muito do trabalho "invísivel" é realizado em casa. Estamos a falar de um trabalho com reuniões intermináveis que fazem com que os docentes, na maior parte das vezes, possuam a radiografia dos problemas que enfrentam mas nunca consigam que o diagnóstico lhes aponte uma cura para o problema, tais são os constrangimentos do sistema educativo (falta de horas de crédito horário para mais professores, falta de espaço, falta de apoios, falta de resposta dos serviços médicos, etc). O aluno fica "preso" no ensino regular até ter idade para ir para o tal prometido CEF, muitas vezes quando se sabe que a escola não proporcionou (devido aos tais constrangimentos) todas as condições para que esse aluno tivesse sucesso e para os seus professores serem capazes de lhe proporcionar. 

Claro que tudo fica devidamente registado na devida redoma burocrática com atas sem fim, tentando-se todo o tipo de estratégias e apresentando-se todo o tipo de sugestões que acabam indubitavelmente no "céu" das atas. E lá ficam para todo o sempre arquivadas. Hoje os professores não são profissionais de educação, são profissionais da escrita em atas e da burocracia em grelhas de excel, e também especialistas de psicologia, de medicina, um porto de abrigo para muitos alunos, pais e mães substitutos para outros tantos. 

Assim, quando um professor chega às reuniões de avaliação do 3.º período, as coisas complicam-se porque é confrontado com todo o conhecimento humanista que possui do aluno desde o início do ano letivo, deixando de lado a medição avaliativa que, como que por "magia", quase passa a ser um acto de caridade, mesmo que, muitas vezes, se trate de alunos com casos de indisciplina. Indisciplina, essa, que não foi e não pode ser solucionada da forma como o sistema está organizado actualmente. 

Muitos alunos indisciplinados simplesmente não se adaptam ao ensino regular, acabando por se tornar muitas vezes no maior problema da sala de aula. Não é por isso de admirar que muitos docentes considerem que a única "arma" que possuem para atestar a sua autoridade é a questão de irem tentando, ao longo do ano, passar a ideia (a alunos e encarregados de educação) de que a nota determina a transição ou a não transição de ano.

Para além de décadas de medidas educativas falhadas, o maior problema actual, sob a alçada dos decretos-lei 54/2018 e 55/2018, é o de que o paradigma avaliativo subitamente mudou. A questão já não é como não se retêm os alunos, o problema maior é o facto de os mesmos transitarem (com a subida "mágica" dos níveis em conselho de turma), dando a ilusão aos encarregados de educação de que os seus educandos transitam por mérito próprio (independentemente do que tenham feito, ou não, ao longo do ano letivo).

Quando se chega ao 3.º período, as grelhas de avaliação contínua dos docentes que tanto medem a evolução dos alunos ao longo do ano letivo, passam a estar sob o jugo de um ambiente de alegada "pressão" dos directores e das metas do agrupamento, fazendo com que os docentes entrem numa espécie de transe, numa espécie de "leilão" (sob pressão acrescento) das notas dos seus alunos. Isso aliado, também ao cliché do "tem que passar" ou "transita porque tem uma idade elevada", ou "transita porque não é ano terminal", ou "transita com promessas de integrar um CEF", ou transista ou...ou transita ou...ou transita...e pronto assim se acaba mais um ano letivo: "transitando". 


Parte 3 - A ser assim, por que é que os decisores políticos não assumem publicamente e de forma transparente a não retenção dos alunos para podermos finalmente avançar?  (aqui)



(Arquillect)



quarta-feira, 26 de junho de 2019

Uma visão sobre o trabalho docente - Parte 1


Parte 1- O desafio e a complexidade do trabalho docente sob uma evidente falta de cultura de escola


A maior parte do trabalho docente está tradicional e absolutamente assente no pilar da avaliação e actualmente não se centra apenas em tentar desesperadamente ensinar, mas sim em manter-se à tona (aqui). Esse tradicional ênfase na avaliação consiste em recuperar a maior parte dos alunos que simplesmente não estudam (pelos mais variados motivos e constragimentos), mesmo aqueles que sejam considerados "irrecuperáveis" e, sobretudo, em provar que o professor está a fazer tudo ao seu alcance para os ajudar a ter sucesso na escola e nas aprendizagens.

Tudo isto sucede numa escola com um corpo docente (que por mais envelhecido que esteja) tem que envidar todos os esforços para integrar no processo educativo todos os problemas e complexidades que os alunos trazem com eles para a escola, sejam  de natureza sócio-económica, familiares (divórcios, violência, falecimento de familiar, lares desestruturados) entre muitas outras razões. E o cenário piora ainda mais quando os alunos e os pais não têm uma cultura de escola. Uma cultura em que a família dá relevância à escola e ao papel de transformação social que a mesma deve ter como instituição na formação da cidadania dos seus educandos. Mas também como organização que não pode ser reduzida a "formatadora" de mentes, ou apenas a um ATL, mas sim como o caminho progressivo que deveria conduzir não só ao conhecimento, ao saber ser e ao saber estar, como também ao caminho para a felicidade. É dessa cultura que falo e que infelizmente ainda não existe nas escolas. ~

A escola não pode ser mais um bode expiatório de uma visão afunilada e ideológica que pende entre a saudade de uma escola salazarista e uma escola que só serve para medir e aferir conhecimentos em provas e exames. A escola tem de ser um lugar de afectos e de brincadeira. Integrar no ensino o brincar e o jogo como forma de chegar à experiência e ao conhecimento. O futuro depende das gerações que saibam pensar "fora da caixa" e não daqueles que apenas memorizam, reproduzem e se transformam numa espécie de "cavalos de competição".

O futuro depende de cidadãos solidários e altruístas e não apenas centrados no seu próprio ego. O futuro depende do trabalho em equipa, num mundo global, com conhecimento partilhado, de forma variada e transversal. Os futuros alunos devem saber tomar decisões, ser autênticos "capitães de equipa", saber brincar, relaxar, atuar, tudo em democracia e liberdade. Temos hoje o papel mais difícil de sempre que é o de transformar a escola para que a mesma possa transmitir valores de democracia, liberdade, constituição, mas também de ecologia e desenvolvimento sustentável.  

A escola (como micro-sociedade que é) não deve ser o reflexo das falhas da sociedade presente, mas sim a visão de uma sociedade futura que se pretende basicamente melhor e mais informada que a anterior.



Parte 2 - Avaliação dos alunos que faz "reféns" os docentes (aqui




(Arquillect)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Tenho saudades dos tempos em que ainda acreditava...


- que leccionar significava muito mais que um simples trabalho;

- que a minha voz e as minhas sugestões seriam ouvidas nos gabinetes das direcções, nos conselhos de turma, nas reuniões de departamento, nas reuniões de grupo, entre os meus pares; 

- que os professores teriam sempre uma voz decisória, crítica, imparcial e assertiva;

- que os ministros da pasta e os partidos políticos poderiam alguma vez melhorar a educação sem ter apenas em vista poupar;

- que os sindicatos de professores não teriam apenas um papel paleativo mas sim preventivo

- que as sucessivas reformas educativas serviriam para melhorar a educação no nosso país;

- que a classe docente é igualitária tanto nos direitos como nos deveres e que nunca cairia no conformismo e no mero umbiguismo;

- em concursos de professores justos e equitativos;

- em oportunidades para os mais "jovens" poderem fazer parte da mudança nos centros decisórios; 

- que haveria luz ao fundo do túnel e que tudo iria melhorar depois de tantos anos a ganhar tão pouco, por vezes a não trabalhar sequer, e a estar sempre tão distante de casa.




Houve uma época em que acreditei em tudo o que mencionei em cima. Reconheço que fui ingénuo, mas por instantes acreditei (suponho que é melhor que o niilismo actual das coisas). 




(Arquillect)

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A verdade vem sempre ao de cima (mesmo que não admitam)


Ao contrário do que fora afirmado pela Secretária de Estado da Educação, Alexandra Leitão (aqui):

"A S.E. dá o exemplo de que para ter acesso ao subsídio de desemprego são necessários 360 dias de descontos em 2 anos e diz que um "professor com horário de 7 ou mais horas de componente lectiva consegue aceder a todas as prestações sociais porque desconta por ano 120 dias". Ora, ou a senhora S.E. se enganou nas contas ou alguém que me explique como é que 120 + 120 dá 360 dias declarados. Acresce, ainda, que para o regime social de desemprego são necessários 180 dias por ano, pelo que, no exemplo proferido, com os 120 dias um professor também não tem acesso a tal;"

E essa mesma tese foi defendida pela deputada Sónia Fertuzinhos do PS (aqui):

"Também ela defende o "erro" de que um "professor com horário de 7 ou mais horas de componente lectiva consegue aceder a todas as prestações sociais porque desconta por ano 120 dias". Pior, acaba por intepretar de forma incorrecta as condições para o acesso ao subsídio de desemprego argumentando que "um professor com horário completo precisa de 2 anos com horário completo para ter acesso". O que é manifestamente errado"

Só aquando da apresentação do relatório (por parte da deputada Sónia Fertuzinhos) da petição aos peticionários em reunião (aqui) e na publicação do mesmo (aqui) é que se percebe, que tudo que se passou para trás, não passou de uma tentativa (diria em má fé) de tentar ganhar o argumento e minorizar a petição e os peticionários que defenderam em nome dos professores lesados nos descontos para a S.S. em sede da Comissão de Educação e Ciência. Mas a verdade tarda mas aparece, e aparece plasmada em documentos oficiais contradizendo as palavras proferidas anteriormente.


(clicar imagem para ver maior)


(retirado de aqui)



Pior disto tudo é que estes deputados estão cientes de que apenas os professores contratados em horário lectivo com pelo menos 12 horas podem cumprir os prazos mínimos de garantia para acesso às prestações sociais de subsídio de desemprego (que são de 360 dias nos 24 meses anteriores). Ora, nos concursos de professores, os intervalos de horário são uma espécie de roleta russa, não sendo possível prever com exactidão o resultado da atribuição horária. (aqui


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Até verti uma lágrima...






(Scorpion Dagger)

Autonomia superior aos 25%



Pela conversa, promete um total desconhecimento sobre o que virá se os "planos" elaborados à pressa dos agrupamentos forem aprovados. Uma "corrida" que já começou com a flexibilidade (aqui). Nunca a conversa da autonomia provou ser especialmente positiva para os professores, porque seria desta vez diferente? Só porque o Filinto e a Ariana assim o desejam? Temo. Temo muito. Sobretudo pelo factor arbitrário, de escola em escola, de director zeloso em director zeloso. Só quem calcorreia muitas escolas por este país se pode sentir assim: temeroso. Especialmente por se concentrar mais poder nas direções. Quem é da casa, por norma, nada teme: sobrevive

Gato escaldado...


(Arquillect)


domingo, 2 de junho de 2019

Eu Flexibilizo...


Tu Flexibilizas

Ele Flexibiliza

Nós Flexibilizamos

Vós Flexibilizais

Eles Flexibilizam

Todos de forma muito autónoma, até não restar pedra sobre pedra através do DL n.º55/2018 (aqui),  fazendo mais (muito, muito mais) com os mesmos recursos. E os professores, esses mordem o "isco"... 


(Scorpion Dagger)

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O cartaz sindical tem falta de causas de "indignação"?


Os professores lesados pelas ultrapassagens, professores contratados lesados nos descontos da Segurança Social e os professores das AEC não são causas de indignação suficiente para serem mencionadas no cartaz?

E para aqueles que advogam "ferozmente" que o cartaz "cobre" todas as causas, inquiro-me por que é que não é a primeira vez que isto acontece? Basta ver aqui e aqui



(Plataforma Sindical)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Rui Rio repete incessantemente em entrevistas...


...o regresso subtil da ideia do "fazer mais com menos" originária da governação Passos/Crato. Basta reparar que já repetiu a mesma mensagem aqui. 


(TVI)

Auxiliar de memória: aqui

quarta-feira, 8 de maio de 2019

É preciso não cair na esparrela... claramente alguns começam a resvalar



- Partidos políticos: um PS a dizer que não dá nada, escondendo e moldando as contas a gosto e hostilizando posições e a própria opinião pública; um PSD e um CDS-PP a dizerem que não recuaram e que vêm agora dizer que só aprovam se forem impostas mais condições; e um BE e um PCP que tinham uma coligação improvável em mãos e, fruto das mudanças de posições, dizem que não têm outra alternativa senão votar contra

- Mário Nogueira: que aparentemente estaria disposto a aceitar as condições impostas pela direita para conseguir o acordo mas que, sem a "bóia" do PCP e do BE, ficou aparentemente em situação de "naufrágio". E seria essa iniciativa benéfica para os professores, isto é, comprometer-se em renegociar o ECD, a estrutura da carreira docente e a ADD no próximo quadro governamental, sem ter qualquer garantia de que algum dia o pressuposto do crescimento económico se iria verificar, para conseguir essa "vitória"? 

- Comunicação social: também é notório que a questão principal (942) extravasou para temas como a revisão do ECD e a ADD, em grande parte devido aos comentadores da praça (jornalistas e membros dos partidos políticos). Quanto à maior parte destes pontos, já expliquei o meu ponto de vista aqui

E, agora, alguns autores de blogues sobre Educação: 

- BlogDeArLindo: pergunto-me o que está em causa nestes posts aqui e aqui? Estará Mário Nogueira a agir bem em fazer tudo para aceitar as condicionantes impostas e conseguir o acordo? E os partidos que votam contra, estão errados por não aprovar as tais condicionantes?

- ComRegras:  o que está em causa aqui? Começarmos a debater propostas da ADD, quando o cenário que se avizinha significa que é a troco de nada e a pedido de partidos que, durante a última legislatura, tanto prejudicaram os professores? 


Atenção: não coloco em causa a seriedade e a legitimidade de opinião, mas pergunto, como o próprio título indica, se eles próprios não estarão inadvertidamente a "cair na esparrela"?











(A Mosca - Luíz Afonso aqui)

Dizem que é 6.ª feira!!




Portanto, até lá os professores continuarão a ser "pau para toda a colher" à mercê dos jogos políticos, comentadeiros da praça, economistas encomendados e liberais ressabiados em fóruns nas rádios (aqui) e televisões...




(THX 1138)


terça-feira, 7 de maio de 2019

Já toda a gente tinha percebido que o acordo tinha ido por água abaixo...


...devido aos recuos e "flips" dos termos do acordo propostos pelo PSD e pelo CDS/PP. Naturalmente essas mudanças iriam provocar com que BEPCP fossem obrigados a votar contra e inviabilizar a proposta.


Provavelmente o que vai suceder a seguir será uma troca de acusações entre partidos, ao mais puro estilo infantil, nomeadamente com a direita a fazer-se de vítima e assinalar que o acordo só não segue em frente devido aos chumbos da esquerda. E é assim que vão vender a ideia para a população. É só mais um "back flip" na gíria da ginástica, isto vindo de gente sem coluna vertebral, é obra...

O que provavelmente, não seria esperado era a posição de Mário Nogueira, que alegadamente estava disposto a tudo para conseguir o tempo de serviço, mesmo que isso significasse "entregar" aos partidos de direita o poder para "mexer" nas carreiras dos professores e muito mais. 



Resumindo, aparentemente tanto BE como o PCP acabam por proteger os professores deles próprios no finalCreio que sei agora quanto vale o crachá 942 (aqui)? Tudo.








(Daniel Gebhart de Koekkoek)


domingo, 5 de maio de 2019

Quanto vale, afinal, o crachá 942?


Hoje foi dia de "piruetas", tanto de Cristas (aqui), como de Rio (aqui), que pretendem agora mudar os termos do acordo assinado na passada quinta-feira, recuando (mesmo sem o admitir) e, sobretudo, tornando esse recuo numa espécie de novo acordo que é, para as pretensões dos professores, uma mão cheia de nada. 

E porquê? Porque há, desde logo, condições comuns às propostas de PSD e CDS-PP: são as chamadas cláusulas de salvaguarda financeira, o que é o mesmo que dizer que apenas seriam devolvidos os 9A 4M 2D aos docentes se (e só se) o crescimento económico o permitisse. Ora, isto é o mesmo que dizer que qualquer que fosse o governo em funções, teria sempre um argumento vertido em lei que lhe permitiria, se assim o quisesse, não fazer qualquer devolução aos docentes. 

Por agora o que temos é um balanço negativo para os professores: três dias em que os mesmos foram completamente vilipendiados, em prol de uma guerra eleitoral e, consequentemente, uma contaminação da opinião pública relativamente às suas pretensões.

Para além disso, pode estar em cima da mesa a perda de direitos que muitos anos e lutas custaram à classe. Falo do ECD tal como o conhecemos atualmente, assim como a estrutura atual da carreira e o modelo de avaliação de desempenho vigente. Já o disse anteriormente: à primeira chance, alguns senhores políticos não vão deixar escapar a oportunidade de mexer nestes temas.  Aliás, Cristas tem sido, nestes últimos dias, bastante clara quanto a estes pontos: é pretensão do CDS alterar profundamente os mesmos. Quanto ao PSD e ao PS, basta terem força parlamentar para tal.

Agora que já percebemos que a novela do acordo nunca teve, por parte do PSD e do CDS-PP, subjacente a intenção de devolver o tempo congelado aos professores, mas apenas e só a de ir buscar votos aos docentes, resta perguntar: 

Estarão os professores/dirigentes sindicais que defendem intransigentemente o crachá 942 dispostos a pagar a moeda de troca que os partidos agora exigem para aprovarem a medida? 

Estarão dispostos a entregar o ECD ao PS, PSD e CDS-PP e, junto com este, condenarem-se a um novo sistema avaliativo e a uma revisão da estrutura da carreira para conseguirem o que querem?

Quanto vale, afinal, o crachá 942?




sábado, 4 de maio de 2019

Maria de Lurdes não faria melhor...

Com a aprovação do acordo em coligação improvável (aqui), fiquei mais preocupado com o dia a seguir do que propriamente com as notícias em torno do tal acordo firmado. Presumo que quem anda nisto há algum tempo sabe que o "spin" (aqui) do PS é muito forte e em matéria de docentes existe um historial bastante longo e eficiente (basta lembrar 2007 e a era Maria de Lurdes/Sócrates). 

Assim, não tardou para ver na comunicação social os "papagaios" de serviço e os históricos socialistas fazerem dos professores autênticas "pinãtas". Do lado inverso, viu-se a oposição a apressar-se a relegar o acordo para a insignificânciaNo fim, a ameaça da demissão do governo (aqui) para fechar um dia centrado nos professores, na sua carreira e nas repercussões do 942 para o país (história da criação da "crise" pode ver-se aqui).

Pena é que os professores e os sindicatos não tenham entendido que fazem parte de um jogo muito maior do que eles. Um jogo de poder. O que está em causa não é a educação nem os professores. O que está em causa é o poder político e, logo que esse seja assegurado, não irão deixar escapar a primeira oportunidade para alterar o ECD, o sistema de avaliação docente, a carreira dos professores e pulverizar as poucas hipóteses de acesso ao topo da mesma. Aliás, Cristas veio a público dizer que a intenção do CDS-PP é (e passo a citar)  "negociar não só o tempo de serviço, mas também matérias como a avaliação dos professores e as carreiras." Tal como o PSD que desde sempre quer negociar essas mesmas matérias e que também não perderá a hipótese de o fazer, caso lhe seja dada oportunidade para tal.



Ninguém dá nada a ninguém e, aparentemente, muitos professores acreditaram que poderia ser dado algo sem perder nada em troca. E a questão que se coloca é: quem vai "pagar" verdadeiramente as "favas"? A quem vai ser endereçada a fatura? Provavelmente serão os professores que ainda têm muitos anos de carreira pela frente e, sobretudo, aqueles que nem sequer têm carreira (aqui e aqui)


E a médio prazo, após toda a tempestade política, ficarão, igualmente, algumas questões: valeu a pena defender integralmente o "942" e não um qualquer meio-termo? Valeu a pena ser novamente vilipendiados pela classe política e comentadores da praça, como se observou nas últimas horas? 

Em dias como estes últimos, recordo-me sempre daquela fatídica frase de Maria de Lurdes Rodrigues: "Perdi os professores mas ganhei os pais e o país". E nisso eles estão cada vez melhores (Costa revelou ser muito mais arguto no timing para criar esta "crise"). 

Falta apenas saber o que fará Marcelo que observa em silêncio a situação, como quem observa um jogo de xadrez. A minha aposta inicial é o veto político. Mas, dado que a demissão se coloca com a aprovação do acordo em lei, a demissão do governo de Costa será feita usando, em última análise, os professores como o perfeito "bode expiátorio" da crise criada. Mesmo que se saiba que foi a direita, uma vez mais, que deu este passo hipócrita para ganhar votos.


(Arquillect)


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